"Não desejo descobrir o que tocaste senão amarei muito mais do que se tivesse tocado.
Não me fales "gosto daquilo" que já estarei gostando junto. Evite comentários.
Não me digas "vamos naquele restaurante" que será mais um lugar para te esperar.
Não inventes deitar na grama no domingo que o sol grudará nos dentes.
Não narres aos ouvidos da cama o que podemos sentir.
Não ponhas trilha no celular, não troques as almofadas, não escolhas as toalhas e os lençóis, controla essa mania de se espalhar por tudo, de botar teu cheiro por dentro de minha boca.
Não abras mais o leite sem romper o lacre, não deixes a gaveta entreaberta, a torneira entreaberta, meu corpo entreaberto. Não reclames do que não fiz, que farei de novo para chamar tua atenção.
Não arrumes minha gravata, que me acostumarei a pedir conselhos. Não arrumes minha gola que o vento é mesmo enviesado.
Quero te conhecer menos para não sofrer depois tanto tua perda. Mas deveria ter dito isso antes."

Carpinejar


Tudo que você pensa e sofre
dentro de um abraço se dissolve...

Martha Medeiros

“…e essa falta cresce à cada dia, de forma avassaladora… quando enfim penso que estou me acostumando, que estou te esquecendo, você ressurge de forma inesperada ocupando todos os espaços, transbordando de dentro de mim... e é nessa inconstante loucura que vivo sem te ter.”

Caio Fernando Abreu

Porque Era Ela, Porque Era Eu...

Eu não sabia explicar nós dois
Ela mais eu
Porque eu e ela
Não conhecia poemas
Nem muitas palavras belas
Mas ela foi me levando pela mão

Íamos todos os dois
Assim ao léo
Ríamos, choravamos sem razão
Hoje lembrando-me dela
Me vendo nos olhos dela
Sei que o que tinha de ser se deu
Porque era ela
Porque era eu

Pensamento vem de fora
e pensa que vem de dentro,
pensamento que expectora
e que no meu peito penso.
Pensamento a mil por hora
tormento a todo momento.
Por que é que eu penso agora
sem o meu consentimento?
Se tudo que comemora
tem o seu impedimento,
se tudo aquilo que chora
cresce com o seu fermento;
pensamento, dê o fora,
saia do meu pensamento.
Pensamento, vá embora,
desapareça no vento.
E não jogarei sementes
em cima do seu cimento.

(Arnaldo Antunes ,
Do livro: "Tudos", Iluminuras, 4ª ed. 1998, SP)
"Você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora.
Para que o protejam, para que sintam falta.
Tanta vontade de viajar para bem longe,
romper todos os laços, sem deixar endereço."

Verdade Interior - Pequenas Epifanias
Caio Fernando Abreu


"...tenho uma parte que acredita em finais felizes. Em beijo antes dos créditos, enquanto outra acha que só se ama errado. Tenho uma metade que mente, trai, engana. Outra que só conhece a verdade. Uma parte que precisa de calor, carinho, pés com pés. Outra que sobrevive sozinha. Metade auto-suficiente..."

Caio Fernando Abreu


*
“Não era o sopro de uma respiração ofegante, não era o sopro de uma respiração difícil, era mesmo um grito. Gritava tão alto que Tomas teve de afastar a cabeça da cara dela como se, perto do ouvido, o grito lhe furasse os tímpanos. Não era uma expressão de sensualidade. A sensualidade é a mobilização máxima dos sentidos: observa-se o outro intensamente e escutam-se todos os seus ruídos, mesmo os mais imperceptíveis. O grito de Tereza, pelo contrário, era para anestesiar os sentidos, par impedi-los de ver e ouvir. O que gritava nela era o idealismo ingênuo do seu amor que pretendia ser a abolição de todas as contradições, a abolição da dualidade do corpo e da alma e talvez mesmo a abolição do tempo. (...) Quando o grito se acalmou, adormeceu junto a Tomas, agarrando-lhe na mão durante toda a noite. Já aos oito anos adormecia com as mãos uma na outra (...). Portanto é perfeitamente compreensível que segure tão afincadamente a mão de Tomas sempre que está a dormir: foi para isso que se preparou, foi para isso que treinou desde a infância.”
*
(Milan Kundera, “A Insustentável Leveza do Ser”)